8 de out de 2009

ANDRADE


DEPOIMENTO:


"A vida impõe obstáculos e ultrapassá-los não é tarefa fácil. Andrade viveu isso bem de perto, desde os tempos de jogador. Ser percebido no meio de tantos craques no Flamengo, na década de 80, era missão para poucos. E ele soube carregar o piano.

Com talento, escolheu as melhores teclas para mostrar que a sofisticação pode andar junto com a simplicidade. Andrade mantém o estilo tranquilo e carrega a calma como arma para buscar o mesmo sucesso da época de jogador. Simples, assim é Andrade!"

(Fabio Azevedo, jornalista da TV Bandeirantes)

PARTIDA INESQUECÍVEL:


Estamos no dia 8 de novembro de 1981. O Flamengo na quarta-feira seguinte iniciará a decisão da LIBERTADORES contra o time do Cobreloa (Chile). É um jogo relativo à sétima rodada do terceiro turno do Campeonato Carioca. Foi o troco da goleada sofrida pelo mesmo placar para o rival em 1972, no dia do aniversário do Flamengo. E aquele time, em quarenta dias, venceria a Libertadores, o Estadual e o Mundial Interclubes, no período mais vitorioso da história do clube mais popular do país. Em todos os jogos a torcida do Botafogo sempre comparecia com duas faixas : “O FLA É FREGUÊS” E “GOSTAMOS DE VO6 ( 6 X 0 )”. A primeira, com a Era Zico, foi retirada já que o Flamengo ultrapassou o Botafogo no número de vitórias. Faltava a segunda...

Torcedor de arquibancada ficava sempre incomodado com aquela faixa relativa à goleada sofrida pelo Flamengo no dia do seu aniversário em 1972.

O Botafogo ainda não tinha sido derrotado pelo Flamengo em 1981. Pelo Brasileiro, os times se cruzaram nas quartas-de-final e o Alvinegro, após o empate sem gols na primeira partida, meteu 3 a 1 de virada, com show do meia Mendonça. Pelo Estadual, outro empate sem gols na Taça GB e vitória do Bota no segundo turno por 2 a 1. Lembro-me de que no primeiro turno do ano passado (1980) numa partida do primeiro semestre pelo Campeonato Carioca tínhamos feito 3 a 0 no primeiro tempo e no segundo tempo o time preocupado em se poupar não procurou mais o jogo. A torcida saiu frustada. Zico no final do jogo entendeu o sentimento de todos os rubro-negros.

Voltemos a essa partida do dia 8/11/1981. Não valeu título, nem classificação para nada, mas nenhum rubro-negro que vivenciou aquele jogo, como eu, se esquece.

Logo aos sete minutos o Flamengo abriu o marcador, com Nunes. Aos 27, o Mengão fazia 2 a 0 com Zico e antes mesmo de dar o intervalo do jogo já estava 4 a 0 com gols de Lico e Adílio.

A torcida foi para o intervalo gritando “QUEREMOS SEIS”.

A conversa no vestiário do Fla no intervalo se resumiu a apenas uma frase: ”É hoje!”!”

Preocupado em não levar os seis gols, o Botafogo voltou todo recuado. O goleiro do Botafogo, Paulo Sérgio, fazia grandes defesas. Raul também contribuiu ao defender cara a cara um chute de Jairzinho, que entrou no segundo tempo. Vale lembrar que o mesmo Jairzinho estava presente na goleada aplicada pelo Botafogo nove anos atrás.

Até que, aos 30 minutos, Zico fez de pênalti o quinto gol. É importante notar que na cobrança ele bateu a penalidade máxima com força fugindo totalmente de suas caracterísitcas. Esse gol era importantíssimo...

O último gol veio nos pés de ANDRADE (nosso entrevistado) aos 42 minutos. Nossa alma estava lavada.

Andrade marcou apenas 28 gols nas 569 partidas que fez com a camisa do Flamengo. Porém, nesta goleada seu gol acabou ganhando um valor inestimável.

Veja o que disse Andrade sobre esse gol : "Aquele gol foi o que mais marcou. Não acho que foi minha melhor atuação, mas, com certeza, ficou muito marcado. Sempre falam comigo sobre ele. Foi muita alegria na hora do gol”.

Confira todos os gols dessa partida inesquecível no vídeo abaixo:


Ficha técnica do jogo

Flamengo: Raul, Leandro (2), Figueiredo (3), Mozer (4) e Junior (5), Andrade (6), Adilio (8), Zico (10), Tita (7), Nunes (9) e Lico (11)
Técnico : Paulo Cesar Capergiani

Botafogo: Paulo Sérgio, Perivaldo (2), Gaúcho (3), Osvaldo (4) e Jorge Luiz (6), Rocha (5), Ademir Lobo (10), Mendonça (8), Edson (7), depois Jairzinho (14), Mirandinha (9) e Ziza (11)

Árbitro
: Édson Alcântara do Amorim

(texto de Rui Alves Gomes de Sá)


ENTREVISTA:


O mineiro de Monte Castelo Jorge Luís Andrade da Silva nasceu em Juiz de Fora no feriado de 21 de abril de 1957. Quando os brasileiros comemoravam o feriado de Tiradentes em pleno período de desenvolvimentismo dos “Anos JK”, o torcedor do Flamengo, amargurado por deixar escapar o tetracampeonato carioca em 1956 e triste com a campanha de 1957, não sabia que nascia naquele momento uma peça fundamental que viria a ser o maior time do Flamengo de todos os tempos.

Andrade iniciou a sua carreira no Tupi de Juiz de Fora, onde jogou por apenas três meses. Aos 15 anos, foi chamado por um “olheiro” chamado Ivanir para um teste no Flamengo, no qual foi aprovado e assim, iniciou sua longa trajetória no time de maior torcida do Brasil. Aos 17 anos, iniciou sua carreira profissional, sendo emprestado ao time venezuelano do ULA Mérida.

Segundo Andrade, esta transferência foi fundamental em sua carreira, fazendo crescer não somente seu futebol, mas também seu caráter e amadurecimento. Morava em um hotel com o zagueiro brasileiro Amaro e quando chegou ao ainda precário futebol venezuelano mudou de posição. De cabeça-de-área foi jogar como meia-atacante e, às vezes, até mesmo como atacante. Foi artilheiro do campeonato em 1977 e a experiência como camisa 10 “aprimorou seu passe e arremate ao gol”, segundo ele mesmo afirmou nesta entrevista.

Retorna ao Flamengo em 1978 como um desconhecido e logo o técnico Cláudio Coutinho o elege como substituto de Paulo César Carpegiani, que passava por problemas médicos que abreviariam a sua bela carreira. No entanto, com Carpegiani apto para jogar, o técnico tinha uma salutar dor de cabeça: como encaixar o “Tromba”? A solução foi escalar os dois no mesmo time deslocando Adílio para a ponta. O resultado foi o tricampeonato de 1979. A partir daí, todos conhecem a história daquele time que conquistou o mundo em 1981.

Mas Andrade teve a simpatia e paciência para conceder esta entrevista antes de mais um dia de trabalho na Gávea, agora na função de treinador, acrescentando sua visão sobre alguns assuntos que interessam não só a torcida do Flamengo, mas também os amantes do bom futebol
.

Daniel/Rui: Sobre a transição Coutinho – Carpegiani, os jogadores influenciaram na decisão da diretoria? Você faz algum paralelo com a sua efetivação em 2009?
“Não, eu não vejo semelhanças não. Foi sim um pedido dos jogadores a efetivação de Carpegiani, mas eu sou treinador, já tive outras passagens como técnico pelo Flamengo, fui auxiliar técnico. O Carpegiani não, nunca tinha treinado um time de futebol”


Daniel/Rui: Sobre a história que o Renato Maurício Prado divulgou na última semana, você realmente tomou os comprimidos recomendados pelo Carlos Dolabella?
“Não, o dopping jamais existiu. Eu nunca soube de nada disso. O Zico já se manifestou sobre isso e o nosso presidente também. Eu não quero comentar sobre isso, acho melhor não alimentar esta polêmica. A minha expulsão aconteceu não porque eu estava dopado, mas sim porque nós estávamos realmente com um excesso de vontade (por tudo o que aconteceu no jogo do Chile) e o juiz já tinha expulsado um do time deles, então ele quis compensar.”


Daniel/Rui: Vocês sentiram algum tipo de pressão dos militares chilenos no jogo contra o Cobreloa?
“Olha, nós sentimos um clima de guerra em Santiago, um clima de intimidação ao time do Flamengo. Houve invasão de campo após o gol do Cobreloa, as agressões ao nosso time. Nós jogadores não sabíamos muito sobre a política, somente que existia uma Ditadura Militar no poder, mas nada relacionado à política”


Daniel/Rui: A história do deboche dos jogadores do Liverpool é verídica ou apenas mais um "causo" do futebol?
“Eu acho que os jogadores do Liverpool acharam engraçado a corrente de oração do time antes da entrada em campo e começaram a rir. Eu acho que é mais uma questão cultural mesmo, eles não estavam acostumados com aquilo. A partir daí o Júnior falou: ‘Deixa eles rirem agora, pois depois eles vão chorar’.”


Daniel/Rui: Sobre 1987, em algum momento os jogadores cogitaram jogar contra o Sport?
“Em momento algum o time quis jogar com o Sport. Nós jogamos contra o Inter e ganhamos. Éramos os campeões, éramos considerados os melhores por todos, inclusive pela imprensa. Não tinha porque jogar contra o Sport, não tínhamos nada mais a provar”


Daniel/Rui: Como foi a sua passagem pelo Roma entre 1988 e 1989? Quais as dificuldades para a adaptação?
“Eu estava em excursão com a seleção e depois me apresentei ao Flamengo que também estava em excursão pela Europa, se eu não me engano disputamos um torneio na Holanda. Eu estava desgastado e cheguei depois da pré-temporada, que é fundamental no futebol europeu. Mas eu fui titular e joguei bem nos três primeiros jogos.


Mas logo aconteceu uma situação complicada. Giannini era meia-atacante e o único jogador do Roma que estava na seleção, que depois dos três primeiros jogos estava em um momento ruim. Ele deu uma entrevista dizendo que eu jogava pela mesma faixa de campo dele, o que estava atrapalhando seu futebol. Criou-se um clima desfavorável para mim e ao mesmo tempo eu senti que estava mal fisicamente, tentei até mesmo treinar fisicamente fora do horário, pois depois da pré-temporada eles só fazem a manutenção e eu não fiz a pré-temporada, e isso me atrapalhou muito. Eu não conseguia render, a parte física me atrapalhou muito.


Não foi bom profissionalmente, mas foi uma ótima experiência de vida.”


Daniel/Rui: Como seu retorno para o Vasco foi recebido pelas torcidas do Flamengo e do Vasco? E qual a sensação de jogar contra o Flamengo após 14 anos de carreira?
“Minha intenção era voltar ao Flamengo. O Júnior estava voltando também da Itália, do Pescara. O Gilberto Cardoso estava viajando, estava na Itália, enquanto eu estava treinando na Gávea. A situação do contrato somente seria definida após a sua volta e eu continuava treinando esperando por ele. Mas neste meio tempo o Telê Santana deu uma entrevista dizendo que achava que um meio-campo comigo e com o Júnior ficaria muito envelhecido. Eu senti que o clima não era favorável.


Enquanto isso eu recebi uma proposta do Fluminense e do Guarani. Mas a do Vasco era muito boa e o time que eles estavam armando era muito bom. Então eu acabei fechando com o Vasco.”


Daniel/Rui: Em relação à seleção, qual o seu momento mais glorioso e a sua maior decepção?
“O Gol contra a Áustria foi o momento mais positivo da minha passagem pela seleção. O momento mais triste foi porque eu participei de todos os jogos das eliminatórias de 1986 e não fui convocado.”


Daniel/Rui: Por que você estendeu a sua carreira até 1997?

“Jogava por prazer. Parei por problemas no joelho, jogando pelo Bacaxá. O Zico tinha já falado para mim, quando você quiser venha trabalhar comigo aqui no CFZ. Então eu fui para lá!”


Daniel/Rui: Você tem empresário? Como é a relação destes novos elementos do futebol com os clubes e os treinadores?
“Olha, eu acho sim importante ter um empresário. Porque eu não posso sair por aí me oferecendo para os clubes, é falta de ética. Mas se eu tenho um empresário e ele me oferece, é menos complicado. O empresário faz a ponte entre o técnico e o clube. Hoje eu não tenho empresário, mas penso em ter sim! Nunca houve interferência de empresário no meu trabalho, para escalar jogador A ou B.”


Daniel/Rui: Qual recado você gostaria de deixar para os jovens?
“Acho que o diálogo é o melhor caminho para solucionar os problemas, sou contra a punição, entendeu?! Eu acho também que a família é muito importante, a minha família foi fundamental para a minha carreira”