29 de ago de 2010

Jairzinho


DEPOIMENTO:

Quando Paulo Amaral regressou da Itália,onde foi técnico da Juventus, ingressou no Botafogo e viu Jairzinho iniciando sua carreira profissional. Ele,conversando comigo,teve uma frase que eu nunca esquecí: "O Botafogo é abençoado. Acabou o Garrincha e surge o Jairzinho", como que prevendo tudo o que viria a acontecer com o estupendo atacante campeão mundial de 1970. Jairzinho ganhou o apelido de Furacão por seu estilo valente e principalmente pela exuberante técnica destrutiva que possuía. Um furacão que nenhum instituto de metereologia conseguia prever. Simplesmente chegava e devastava. Foi o único jogador que fez gol em todos os jogos de uma Copa do Mundo. O gol marcado no 1x0 sobre a Inglaterra foi o grande momento em que sentí que o Brasil conquistaria o seu terceiro título. Foi,para mim, o relâmpago da grande emoção dentro daquela inesquecível Copa do Mundo.
Luiz Mendes, comentarista da Rádio Globo

PARTIDA INESQUECÍVEL:

Nelson Rodrigues diria que até os mortos se levantaram de seus túmulos para vibrar com o petardo de direita que bateu o lendário Gordon Banks, no sensacional Brasil e Inglaterra daquele mundial. O arqueiro inglês vinha pegando até pensamento, mas não conseguiu segurar o arremate preciso de Jair, depois de uma jogada que começou com Tostão saracoteando na frente de Bobby Moore e continuou com o passe preciso de Pelé para o Furacão. Um golaço, inesquecível para Jairzinho e inesquecível para todos nós, seus fãs.




ENTREVISTA:

Jair Ventura Filho, o Jairzinho, é caso raro. Foi craque de bola e ultrapassou os limites do clube que defendeu – o Botafogo – para se transformar em ídolo de toda a torcida brasileira. Entrou para a história como o Furacão, estraçalhando as defesas adversárias e marcando gols em todas as partidas da Copa do Mundo de 1970. Foi ponta de lança no Botafogo, legítimo camisa dez, e atacante, ponteiro direito, na seleção do tri. Pelo alvinegro participou de prélios lendários; ganhou e perdeu, por exemplo, de seis a zero do Flamengo. Quem viu, garante: poucos conseguiram unir de forma tão precisa velocidade e habilidade com a redonda nos pés.

Rui e Daniel: Como tudo começou?

Jairzinho: Eu fui criado em General Severiano e, por sorte minha, em frente ao campo do Botafogo. Ali, no dia a dia da vida de um garoto de uns 7 ou 8 anos, nós jogávamos futebol na rua, na praça que tem lá, ainda hoje. E, nos finais de semana, a gente pulava o muro para assistir aos jogos do Botafogo e também durante a semana ao próprio treinamento. Aí, quis o destino que no ano de 1961 – quando eu já jogava num time lá em General Severiano – que era o “Estrela Futebol Clube” e nós viemos jogar aqui no Forte do Leme contra um adversário. Neste adversário, estava um dos jogadores do profissional do Botafogo, o Lucas, lateral esquerdo que era reserva do Nilton Santos, e nós jogamos contra este time, nós ganhamos, quando eu fiz dois gols. O Lucas se encantou e me convidou para eu ir fazer um teste na categoria juvenil do Botafogo. Eu aceitei. Lá eu comecei a minha carreira de jogador no ano de 1961 e daí segui.

Rui e Daniel: Você teve contato com o Garrincha?

Jairzinho: Foi um dos melhores prêmios da minha vida. Eu ia junto com os meus colegas assistir aos treinos e aos jogos do Botafogo e o Garrincha era a alegria de todos nós, a minha principalmente, tanto é que eu jogava de ponta direita me espelhando nele, mas jogar igual a ele, nunca. Então, desenvolvemos a categoria Juvenil do Rio de Janeiro e fomos campeões, bicampeões, tricampeões do Juvenil do Rio de Janeiro e este tricampeonato foi em 63, quando eu fui convocado para a Seleção Brasileira desta categoria para disputarmos o Pan Americano em São Paulo. E ganhamos o Pan Americano. Ao retornar do Pan, o treinador do time principal do Botafogo, que era o Zolo Rabelo, pediu ao Paraguai, que era o treinador do juvenil, que enviasse todos aqueles campeões para ele observar se alguém poderia ser útil e eu lembro que, na véspera, o Jornal dos Esportes era o mais popular do Rio de Janeiro em termos de esporte, e estava escrito que no Botafogo o treinador estava preocupado com o “Quarentinha”, que vinha caindo de produção e estava pedindo à diretoria a contratação de um novo centro-avante. Então, eu me apresentei e falei para o Zolo Rabelo que eu jogava também de centro-avante. Ele mandou eu esperar. No primeiro tempo, jogou o time titular, que era nada mais, nada menos que bicampeão do mundo e bicampeão do Rio. Eram Garrincha, Didi, Quarentinha, Amarildo e Zagalo. No segundo tempo, o Zolo me chamou, tirou o Quarentinha e eu entrei. Imagine eu entrando pra jogar do lado do meu ídolo, cara! Aquilo me encheu de alegria, fica até difícil de expressar a emoção que eu estava vivendo. Foi motivador e entusiasmador, porque já comecei a jogar ao lado do meu ídolo! Treinei, fui feliz, fiz dois gols e dali em diante eu comecei a assumir a titularidade do Botafogo como centro-avante ao lado do Garrincha. É o meu ídolo até hoje e vai ser eternamente.

Rui e Daniel: E sobre os jogos do Flamengo e Botafogo? O primeiro foi em 69. Você estava no jogo em que o Flamengo ganha? O Flamengo era freguês do Botafogo, o Botafogo sempre ganhava e, em Novembro de 69, o Flamengo ganha do Botafogo de 2 a 1. Era o”Jogo do Urubu”, em que alguns garotos aqui do Leme levaram o urubu. Você se lembra deste jogo?

Jairzinho: Um jogo emocionante como sempre, mas desta vez o Flamengo teve uma atuação na altura do nome, do clube, tudo isso e virou o jogo. O Botafogo estava ganhando de 1 a zero e eles viraram pra 2 a 1. Foi uma festa no Rio, uma festa ruim para o Botafogo. O Botafogo não perdia pra o Flamengo e como estava mais ou menos agora, como estava depois em 81, com aquela geração fantástica que o Flamengo criou. E também dali o Flamengo começou a deslanchar. Eu cheguei a ficar 15 jogos de frente jogando contra o Flamengo. Quinze vitórias na frente.

Rui e Daniel: E, em 72, você estava na histórica campanha, vitória do Botafogo de 6 a 0 contra o Flamengo. Você marcou 3 gols...

Jairzinho: É, eu marquei 3 gols, um de letra.

Rui e Daniel: Vocês tinham noção do impacto daquilo naquela época, dos 6 a 0.

Jairzinho: Não, não tinha. Interessante, que eu, como jogador, não conseguia perceber justamente a motivação do torcedor, sentir as emoções de um torcedor na vitória, na derrota. Aquela apreensão que você fica após o jogo, que você sabe que existe isso. As gozações dos adversários.

Rui e Daniel: Você dentro de campo não percebe isso?

Jairzinho: Não, não existe este tipo de comportamento. Eu, pelo menos, procurava sempre fazer a minha parte que era a de jogar com o meu prazer, com o meu amor, e jogar bem para que eu pudesse continuar sempre sendo eleito como o melhor ou recebido como. Agora, neste resultado nosso de 6 a 0, não foi um resultado premeditado, aquilo foi acidente, como também depois em 81, foi acidente. Eu brinco sempre com isso, porque em 72 eu joguei o jogo todo e fiz 3 gols, inclusive o de letra; e em 81 eu entrei e foi a primeira vez que um treinador me barrou, foi o Paulinho de Almeida. “Barrou” que eu digo é: ele me deixou na reserva e eu entrei quando o Flamengo já estava ganhando de 4 a 0. Aí eu brinco com todo mundo que eu só perdi para o Flamengo de 2 a 0 e o pessoal fica aborrecido.

Rui e Daniel: Eu estava pesquisando sobre esse jogo e tem muita coisa. Duas coisas eu queria falar sobre esse jogo. Primeiro, sua declaração depois no vestiário: “Eu só perdi de 2 a 0 e mais, eu ganhei do Flamengo”. Você fez 3 gols no primeiro...

Jairzinho: Sim, eu ganhei, pois quem é que fez três gols no Flamengo, no primeiro?!

Rui e Daniel: O outro problema foi que na véspera do jogo teve um afastamento de dois jogadores.

Jairzinho: Justamente por motivo de..., Paulinho de Almeida criou lá..., jogadores indisciplinados, ele tirou dois, eu não cito o nome dos dois porque o Neto esta aí. Ele tirou os dois justamente no dia do jogo por causa da faxineira. Tirou os dois e isso, de fato deu um desequilíbrio ao grupo, porque dá, né? Este impacto é um impacto negativo. Não é por aí. O Flamengo ganhou porque tinha mérito e era melhor do que o Botafogo nesse momento e quis o destino que devolvesse esse resultado de 6 a 0 pro Flamengo ficar bem. E continua essa polêmica que nós estamos desenvolvendo aqui.

Rui e Daniel: Vamos falar de Seleção: Você chegou muito novo na Seleção, foi em 66.

Jairzinho: Não, eu cheguei em 63 e em 64 eu joguei a Taça das Nações que a Argentina ganhou.

Rui e Daniel: Bem a primeira Copa foi em 66, não?

Jairzinho: Agora sim. A primeira Copa foi em 66 na Inglaterra onde eu tive a minha primeira decepção.

Rui e Daniel: O que você acha que faltou?

Jairzinho: Montaram uma Seleção. Uma série de erros contou para a nossa desclassificação. O primeiro deles, pra mim, foi o excesso de convocação, 44 jogadores. O segundo: jogadores que já não tinham mais condicionamento atlético para jogar esse tipo de competição, que é muito dinâmica, por ser curta. Jogadores que já vinham praticamente de 54. Imagine, não vou também citar o nome deles que não é por aí, mas vocês pesquisando vão ver que é verdade. E nós, eu, Carlos Alberto Torres, Djalma Dias, Tostão, nós estávamos com uma renovação pronta pra jogar mesmo em 66. E, outro detalhe é que nós levamos um mês e meio entre preparação e competição. Nesse mês e meio, nós ficamos aqui dentro do Brasil, cada semana nós jogávamos em dois Estados, dentro do Brasil e era um momento especial pra eles. Nós íamos pra nos mostrar e é errado isso. Você tinha que ter uma preparação já estabelecida no local certo pra você se preparar, você conhecer o grupo, o grupo te conhecer e, sucessivamente, o grupo conhecer a tua filosofia tática de jogo, etc. O que de fato culminou com a nossa desclassificação foram esses detalhes que eu estou passando pra vocês. Agora, eu tenho certeza absoluta de que pra mim foi maravilhoso, porque eu repeti da outra vez, olhei e gravei como não se deve preparar para uma Copa do Mundo e aí foi um bom ensinamento para que eu seguisse em busca do meu ideal que era tentar ser campeão do mundo.

Rui e Daniel: Em 69 vocês classificam uma vitória épica contra o Paraguai, o maior público da história do Maracanã. Vocês estavam com um treinador que era o João Saldanha e, no início de 70, na véspera da Copa do Mundo, ele é demitido. Como o grupo reagiu à demissão do João Saldanha?

Jairzinho: Uma tristeza total, mas você tem que entender que o seu objetivo tem que ser alcançado, que é jogar na Seleção Brasileira. Hoje, tem alguns jogadores, que se recusam a jogar porque outros parâmetros dão a ele essa condição de recusar, Na minha época, você, para ser um grande jogador, teria que jogar na Seleção Brasileira.

Rui e Daniel: Era a afirmação da sua carreira?

Jairzinho: Sem dúvida. Eu fiquei triste evidentemente porque tivemos uma classificação à altura da qualidade do plantel. O Saldanha caiu por motivo que eu não posso concretizar ou afirmar, mas, dizem os ventos da vida, que foi o Médici que o tirou. Aí houve a mudança. Nós ficamos tristes, Saldanha saiu e entrou o Zagalo, só que o Zagalo veio com uma outra filosofia e nesta outra filosofia que o Zagalo implantou, ele tirou quase 80% do time do Saldanha. E eu faço sempre uma aposta até hoje e ganho. Eu pergunto a todas as pessoas quais foram as onze feras do Saldanha?

Rui e Daniel: Onze feras do Saldanha...

Jairzinho: Justamente. Eram 22, mas ele falava: ”os meus 11 são vocês”, os outros vão esperar, só entrariam por motivo de contusão ou expulsão. Aí, eu ganho porque eu acho que nem vocês dois sabem quem são as 11 feras do Saldanha.

Rui e Daniel: Eu pesquisei: Edu, na ponta esquerda.

Jairzinho: Isso não tem problema. Tem que ser da defesa pra frente. Mas então aí...

Rui e Daniel: O também está nas feras do Saldanha.

Jairzinho: Também está.

Rui e Daniel: Pelé também.

Jairzinho: Também está. Já acertou dois, Pelé também.

Rui e Daniel: Tostão não estava.

Jairzinho: Tostão tava, claro. Eu vou ajudar vocês. Era Jairzinho, Gerson, vou ajudar vocês. Jairzinho no ataque. Jairzinho, Tostão, Pelé e Edu. O goleiro não era o Felix, o quarto zagueiro não era o Piaza, nem o central era o Brito. O lateral esquerdo também não era o Everaldo.

Rui e Daniel: Era o Marco Antônio?

Jairzinho: Errou. Era Rildo.

Rui e Daniel: Então errei mesmo, essa eu não sabia.

Jairzinho: O goleiro era o Cláudio. Eu vou dar isso pra vocês, eu ganho sempre, mas não espalha pra ninguém, não! Deixa eu continuar ganhando essa aposta.

Rui e Daniel: A seleção do Saldanha era Cláudio, Carlos Alberto, Djalma Dias, Joel e Rildo. Piaza e Gerson.

Jairzinho: Piaza que jogava de cabeça de área.

Rui e Daniel: Isso, Jair, Tostão, Pelé e Edu.

Rui e Daniel: Agora, esta Seleção comprovou que você pode juntar craques em um time. Tinha problema de relacionamento, vaidade?

Jairzinho: Não, isso é que foi o ponto primordial do nosso grupo, nem o Pelé foi estrela. O Pelé respeitou todo mundo e todo mundo respeitou o Pelé, porque o máximo era ele, vocês sabem que ele era o máximo, nosso rei; mas tem um detalhe também: todos esses, principalmente os homens de frente, eram todos estrelas dos seus respectivos clubes. Eu era a estrela do Botafogo, o Gerson era estrela do São Paulo, Tostão do Cruzeiro e Rivelino do Corínthians. Este ponto é importantíssimo. Então, quando nós olhávamos para o Pelé, o Pelé também nos olhava e falava: tu és bom, mas, eu sou bom também. Tinha isso, o respeito. Não houve desencontro grave. Teve um início que foi em Guanaruato, onde nós fomos fazer a última parte da preparação que era a adaptação à altitude, já nos preparando para que, caso nós jogássemos a final, a final seria na capital, a 2400m de altura. Aí, nessa adaptação, o Fontana não se dava bem com o Pelé por causa da rivalidade de Santos e Vasco e, numa recreação que nós estávamos fazendo jogando vôlei, estavam o Edu e o Pelé jogando juntos contra o Baldoque e o Fontana. Então, o Edu fez lá uma jogada mágica e deu certo e ele gozou o Fontana. Fontana ficou louco, né, já que tinha aquela rivalidade e quis partir para cima do Edu. Aí, o Pelé entrou e houve aquela separação, normal; mas não houve mais consequência grave.

Rui e Daniel: Como última pergunta: Como os jogadores da Seleção de 70 viram a exploração da imagem da Seleção por parte do regime militar? Vocês tinham essa consciência ou não?

Jairzinho: Não. Olha, eu vou falar da minha pessoa. Eu nunca me meti em ações particulares como política, principalmente. Eu não tinha nada a ver, porque eu tinha que cuidar de mim esportivamente. Tinha que cuidar da minha saúde. Até porque a própria política, ou essa ditadura como queira dizer, só me fez bem, não me fez mal. Ela me fez bem porque eu não mexi com ela e nem ela mexeu comigo. Ela me deixou me preparar, ela me deixou trabalhar o meu futebol normalmente, sem nenhuma imposição do tipo: você não pode isso, ou não pode aquilo. Eles nunca fizeram uma reunião com a Seleção.


Rui e Daniel: Tinha militar lá, não?

Jairzinho: Diversos. Todos eles eram, mas não se puseram como ditadores ou militares. Melhor dizendo: nenhum deles, porque todos eles que entraram, todos fizeram parte dentro dos quartéis como homens de esporte. Um era do basquete, outro era no vôlei e etc. Cada um numa modalidade. Quando eles vieram todos nós aceitamos, mas não foi como se dissessem “eu vim aqui disciplinar vocês”, nada disso!

Rui e Daniel: Mas foi uma mudança. Vocês sentiram a mudança na preparação física?

Jairzinho: Não, nós já tínhamos o titular que era o Ademildo Chirol. Eles respeitavam o Ademildo Chirol, porque era o homem que tinha maior conhecimento. Todos eles foram auxiliares, todos eles: Coutinho, Parreira... Só auxiliares. Ninguém chegou dizendo: ”eu sou o homem, sai Chirol, sai Zagalo”, nada disso.

Rui e Daniel: Qual a sua partida inesquecível?

Jairzinho: Todas as de 70, todas! Eu fico revendo todas, mas aquela em que mais me emocionei foi contra a Inglaterra: 1 a 0.

Rui e Daniel: Aquela comemoração com o sinal da cruz, em que você se ajoelha? O que foi aquele símbolo?

Jairzinho: Ajoelhei pra dizer a vocês o seguinte: “Eu vim pra 70 como único jogador no mundo a ter feito enxerto ósseo. Eu tive fratura, refratura no quarto e no quinto metatarsiano do pé esquerdo. Eu vim e me curei. Foi em 66. Em 67, fui operado, me curei e voltei a jogar tanto ou melhor. Eu sou católico;.então, o que fiz como uma pessoa que me faz ser o que eu sou até hoje, eu pedi a Ele que me protegesse contra as pancadas. E eu sempre recebia, porque eu era um jogador decisivo. Era um jogador que ia de encontro ao gol, eu não ia para as diagonais, eu não saia para os lados. Então, além da habilidade que eu tinha, eu também tinha explosão e isso provocava muito contato forte. Eu cheguei lá e nada melhor que agradecer ao meu Maior e mostrar ao mundo quanto é bom você amar a Deus, simplesmente isso.

Rui e Daniel: Para fechar: você, que está trabalhando com jovens, gostaria de passar alguma mensagem para eles?

Jairzinho: A mensagem é que os jovens possam ter de fato uma atenção mais especial dentro do nosso país, que pouco têm. Os jovens só são reconhecidos quando eles já estão representando o Brasil. Só aí é que ele passa a ser reconhecido. Na iniciação, lá o que eu faço é justamente plantar a semente para você colher o fruto, quando podemos ver uma irrealidade dentro do Brasil. Por exemplo: eu mesmo hoje faço um trabalho social, educacional, livremente. Não cobro nada. Lá, dentro de um lugar perigoso, mas estou lá, feliz! Tenho lá 200 garotos que acreditam em mim e que buscam o seu lugar, o espaço que tem que ser deles mesmo, que é o lugar de vitória, de ser uma pessoa que busca conviver dentro dessa sociedade. Quer dizer, se alimentando, tendo onde dormir, tendo a possibilidade de estudar e, após o estudo, se formar ou não; mas já tendo uma noção do que é a vida, tendo uma condição de trabalhar. São esses segmentos que faltam aqui no Brasil. O brasileiro, pra mim, padece muito de patriotismo. Falta muito. Nós não agimos como povo patriota mesmo, que busca dar estabilidade a todos, igualdade. Isso não existe no Brasil. É o que eu digo: que essa garotada faça esporte, porque – principalmente para a garotada carente – só o esporte vai poder dar a ela a condição de uma vida melhor, se não não tem jeito. E nós iríamos ter tudo isso que estamos vivenciando aí: a insegurança, a matança, o sofrimento da população.