31 de mai de 2010

Zico - Primeira Parte



Arthur Antunes Coimbra, mais conhecido como Zico (Rio de Janeiro, 3 de março de 1953), é um treinador e ex-futebolista brasileiro que atuava como meia.

A história de Zico no Flamengo começou em 1967, na escolinha do clube. Zico foi levado pelo radialista Celso Garcia, que viu Zico arrebentar numa partida de futebol de salão do River. O garoto marcou nove gols na maiúscula vitória de 14 x 0. Mas por pouco Zico não foi parar no América, já que o irmão Edu havia acertado, naquela mesma semana, tudo com a escolinha do Alvi-Rubro. A paixão pelo Flamengo falou mais alto. O primeiro jogo no Maracanã aconteceu três anos depois, ainda pela escolinha do Flamengo. O ‘violino’ Carlinhos, que mais tarde viria a ser formador de talentos e treinador campeão pelo clube, estava se despedindo da carreira de atleta num jogo entre Flamengo x América, que terminou empatado em 0 a 0. Zico recebeu de Carlinhos o par de chuteiras, instrumento de trabalho que era arma poderosa nos pés do habilidoso e cerebral meia Carlinhos.

Notabilizou-se como o carismático líder da vitoriosa trajetória do Flamengo nas décadas de 1970 e 1980, com ápice nas conquistas da Taça Libertadores da América e do Campeonato Mundial de Clubes pela equipe carioca, além de quatro títulos no Campeonato Brasileiro e de suas participações pela Seleção Brasileira nas Copas da Argentina 1978, Espanha 1982 e México 1986.

A geração de Zico nasceu junta na Gávea. Adílio, Andrade, Júnior, Rondineli e cia, que levaram o Flamengo aos principais títulos da história do clube- a Libertadores e o Mundial, ambos em 81-, tinham a cara do clube e um jeito de família. Para Zico, a formação de uma grande família rubro-negra foi a essência da conquista. Por isso mesmo, ele tratou rapidamente de construir a sua ao lado de Sandra, vizinha e primeira namorada, que se tornou companheira fundamental nos momentos mais dramáticos da carreira do Galo. Os frutos de seu casamento são três filhos: Bruno, Thiago e Júnior.



É considerado por muitos especialistas, profissionais do esporte e, em especial, pelos torcedores do Flamengo, o maior jogador brasileiro da história do clube e o maior futebolista brasileiro desde Pelé. Não são poucos, também, os que o consideram como o melhor jogador de futebol dos anos 1980, sendo chamado frequentemente no exterior de "Pelé Branco". É o maior artilheiro da história do estádio do Maracanã, com 333 gols em 435 partidas. Marcou 135 gols em campeonatos brasileiros.

Foi somente pela força do futebol italiano que o Galo deu um até breve ao Flamengo. Na segunda proposta dos italianos e, mesmo assim, depois de frustrada uma operação comandada por Zico para cobrir a oferta da Udinese, ele seguiu para entrar na história do futebol europeu, em 1983. Levou o modesto Udinese a resultados surpreendentes, encantou os torcedores e infernizou os goleiros com as cobranças de falta, sua grande arma.

Na volta ao Brasil, duas temporadas depois, aconteceu aquilo que todos temiam. A truculência de um jogador do Bangu chamado Marcio Nunes, tirou Zico dos gramados e o colocou numa rotina de cirurgias e fisioterapia para recuperar o joelho, obrigações que o iriam acompanhar até o final da carreira. Apesar disso, na Copa de 86, Zico estava em campo, no sacrifício. O penâlti, a decepção e a volta por cima estariam no roteiro a partir do momento em que foi ao México.

No Flamengo, ainda no ano de 1986, Zico voltou a brilhar e, mesmo longe das melhores condições, foi o maestro na conquista do título nacional de 1987, contra o Internacional, em pleno Maracanã. Carlinhos, aquele mesmo que cedeu sua chuteira 17 anos antes, estava lá, treinando o Flamengo. Reconhecendo o sacrifício de Zico, a torcida que lotou o Maracanã na final, não cansou de gritar após o jogo contra o Inter: ‘Hei, hei, hei... o Zico é nosso rei’. E ele foi obrigado a voltar do vestiário após o jogo para retribuir o carinho.

Foi eleito como o terceiro maior futebolista brasileiro do século XX, o sétimo maior da América do Sul e o décimo quarto entre todos do Mundo, segundo a Federação Internacional de Futebol (FIFA). É um dos quatro brasileiros a figurar no Hall da fama da FIFA (os outros são Pelé, Garrincha e Didi). Foi eleito o nono maior jogador do século XX pela revista France Football, e o nono Brasileiro do Século no esporte, segundo pesquisa realizada pela revista IstoÉ.



Em reunião realizada em 30 de maio de 2010, no Centro de Futebol Zico, no Recreio dos Bandeirantes, Zico e Patrícia Amorim chegaram a um acordo para que o Galinho assuma o cargo de Diretor Executivo de Futebol do Flamengo. Foram três horas de conversa para que fossem ajustadas algumas questões. A principal foi que Zico não aceitava ser remunerado através da folha de pagamento do clube. Isso foi viabilizado a partir da entrada dos patrocinadores.

- É um grande desafio pela frente. A meta é profissionalizar o futebol do Flamengo, concluir o CT, dar melhores condições ao time e elevar o nome do clube como uma referência. Eu já tinha vontade de ficar no Brasil e sei que colaborar. Conversei muito tempo com a Patrícia, temos muito trabalho pela frente e minha única exigência era não ser remunerado pelo clube- disse Zico ao ZNR.

( http://www.ziconarede.com.br/portal/znr/newz.php?pa=1454)

DEPOIMENTO

Há algum jogo especialmente marcante da passagem do Zico pelo Flamengo? Prefiro inverter a indagação: Há algum jogo, ou mesmo algum momento de um jogo, que não tenha sido marcante na passagem do Zico pelo mais querido? Não há.

Não há porque o filho do Seu Antunes e da Dona Matilde representou, como ninguém, a mística do manto sagrado, a camisa como segunda pele, a alma rubra negra como definidora de uma maneira de estar no gramado e no mundo.

Não era, na verdade, Zico que estava em campo com a dez da Gávea. Ali, nos pés do Galinho de Quintino, era o próprio Flamengo, com toda a grandeza de sua história, que se encarnava no homem. Em qualquer estádio, em qualquer lance, em qualquer jogo...

Janir Júnior [repórter do Ataque, Jornal O Dia]

PARTIDA INESQUECÍVEL

Comecei a me apaixonar pelo futebol e pelo Flamengo quando vi o Zico jogar. Jogador de valores corretos e excelente profissional fez com que eu o visse como um ídolo no futebol. Quando meu pai o levou de forma surpresa no meu aniversário de quinze anos, me deu a oportunidade de poder admirar ainda mais este jogador.




Como o próprio Zico informou, sua partida inesquecível foi Flamengo 2 x 0 Cobreloa, na decisão da Libertadores da América. Foi a vingança da classe contra a violência. O jogo do Flamengo contra o Cobreloa, em Santiago do Chile, não foi uma partida de futebol. Foi uma guerra. Os brasileiros jogaram contra inimigos.

Pressionando desde o início, o Flamengo abriu o placar logo aos 18 minutos. Zico, que (apesar de meia) foi o artilheiro da competição, fez jogada individual na entrada da área, mas perdeu a bola. Quando o lance parecia perdido, no bate e rebate, a bola voltou para os pés do Galinho, que, livre, finalizou com muita precisão: 1x0.

Nem por isso a equipe diminuiu o ritmo no segundo tempo. A etapa final começou já com Zico, melhor jogador em campo, aprontando das suas. Ele deu um belo chute de fora da área assustando o arqueiro do Cobreloa. Depois, foi a vez de Nei Dias fazer bela jogada individual e deixar a bola livre para Nunes, na entrada da área. O atacante só rolou para o companheiro Zico, que chutou forte, mas para fora. O gol do Flamengo estava pintando.
Aos 39, não teve jeito de o Cobreloa segurar. Falta na entrada da área, após o goleiro chileno tocar com a mão na bola fora da área, impedindo a chegada de Adílio ao gol. Mal sabiam os jogadores do Cobreloa que estavam apenas adiando, por alguns segundos, o segundo e decisivo gol rubro-negro. Adivinhem quem bateu? O camisa da 10 da Gávea. Zico cobrou com perfeição, no contrapé do arqueiro, que só olhou a bola morrer no fundo das redes.

Uma vitória limpa, justa e merecida para o Fla, que garantia o título. Mas ainda não estava tudo acabado. Faltava vingar-se da violência sofrida no jogo anterior. Mario Soto, zagueiro do Cobreloa que foi um dos mais agressivos, teria que pagar. Foi então que o técnico Carpeggiani chamou Anselmo e deu-lhe uma única instrução: "pegar o Soto". Dito e feito. Ele foi, deu um soco no rival, e acabou sendo expulso posteriormente. O lance causou uma confusão generalizada.

Com esse simbólico revide, o Flamengo, que já havia provado ser melhor na bola, também se impôs no braço. Anselmo deixou o campo antes, perseguido por todo o time rival, mas levou consigo mais dois chilenos expulsos – inclusive Soto. Apesar disso, saiu feliz por vingar as agressões aos companheiros Adílio e Lico, que sangraram na partida anterior. O segundo, inclusive, ficou impossibilitado de atuar no terceiro jogo, o que obrigou a comissão técnica a chamar às pressas Anselmo – que estava em casa, em Nova Friburgo-RJ, vendo "tudo" pela TV.

O problema foi contornado após alguns minutos e, então, foi só comemorar. O juiz apitou o fim do jogo e os jogadores e torcedores rubro-negros puderam fazer a festa. Festa que durou muito, afinal, foram três títulos naqueles 12 dias no ano de 1981. Não só a Taça Libertadores da América, como também o Campeonato Carioca e o Campeonato Mundial Interclubes. O melhor ano da história do futebol do Clube se concretizava.




Segue a ficha do jogo:
Dia 23 de novembro de 1981.
Flamengo 2 x 0 Cobreloa
Gols de Zico.
Estádio Centenário de Montevidéu.
Juiz: Roque Cerullo.
Expulsos: Andrade. Anselmo (Flamengo). Alarcon. Jimenez e Mario Soto (Cobreloa).
Flamengo: Raul. Nei Dias. Marinho. Mozer e Junior. Leandro. Andrade e Zico. Tita. Nunes (Anselmo) e Adilio.
Técnico: Paulo Cesar Carpegiani.
Cobreloa: Wirth.Tabile. Paes (Munõz). Mario Soto e Escobar. Jimenez. Marello e Alarcon. Puebla. Siviero e Washington Oliveira.
Técnico: Vicente Cantatore.

ENTREVISTA:

1) Como foi o seu contato com o professor Abelardo, que possibilitou sua ida ao aniversário de 15 anos do professor Rui?

ZICO: Fiz o curso técnico de contabilidade (naquela época era preciso ter o científico para fazer a prova da faculdade) e o professor Abelardo era dono da escola. Por ser uma pessoa muito boa, me oferecia algumas facilidades, como não contabilizar as faltas. Naquela época, o futebol já dificultava um pouco a questão dos estudos. Conheci o professor Abelardo nos treinos no América.






2) Seu pai era América?

ZICO : Sim, meu pai era América e naquela época eu conhecia todos os torcedores do América. Lembro do Trajano da ESPN, que sentava ao meu lado e ao lado do meu pai no Maracanã.

3) O Trajano defende que o Edu é o maior ídolo dele.

ZICO : É, eu sei!

4) E sua relação com o Celso Garcia, o “garoto do placar”?

ZICO : O Celso morava em Quintino, do outro lado da linha do trem. Nós sabíamos que existia um locutor da rádio Globo que morava em Quintino, mas não o conhecíamos. Mas a aproximação, de fato, foi através do Zé Gordo, que morava no prédio do Celso e era muito amigo do meu pai. Ele ia tomar cachaça no prédio deles e conheceu o Celso. Passou a ter amizade com a família. Pela influência do Celso (falavam muito de mim para ele, principalmente o Chimango, que era um desses torcedores do América que acompanhava de perto a carreira do Edu) e ele quis me ver jogar. Foi num domingo no campeonato interno do River.

5) Era de Futebol de Salão?

ZICO : Sim! Era até covardia, pois o organizador colocava todos os melhores jogadores no time de que ele gostava, o Santos. Cheguei a fazer 16 gols num mesmo jogo. Era todo domingo de manhã, quando o River começou a encher para as pessoas me verem jogar. Eu ia, pois ganhava um sanduíche e dez cruzeiros. Às vezes, o sanduíche era melhor que os dez cruzeiros.

6) Quantos anos você tinha nessa época?

ZICO: Uns doze ou treze anos.

7) O impressionante é o River encher para ver uma criança!

ZICO: É! Mas aí que o Celso foi me ver. Eu nem sabia. Neste dia, acho que meti uns oito ou nove gols. Acabou o jogo, ele foi falar com meu pai lá em casa para pedir permissão. Naquela semana, eu fui jogar no América juntamente com meu irmão Tonico. O Edu já tinha se apalavrado com o América. Aí, quando meu pai me chamou, eu falei que preferia o Flamengo, pois eu era Flamengo! O Edu disse que não tinha problema.

8) Você já pensava em ser jogador de futebol?

ZICO: Imagina naquela época, 40 anos atrás, o que representava ser jogador de futebol. Hoje, o cara quer aparecer no jornal, ganhar dinheiro e ter carrão. Eu queria jogar no Flamengo, pois era torcedor e ponto. A partir daí, o Celso começou a me levar para treinar no Flamengo no seu período de férias. O Celso me levou todos os dias! O interessante é que, na primeira vez, ele me levou no dia errado. Era uma quinta-feira. Todo mundo naquela expectativa sobre o “irmão do Edu”, o “moleque bom de bola” e, quando ele me apresentou, foi um choque, pois eu era uma criança e o dia era de treino do juvenil. Seu Bria ficou uma fera, falou umas coisas para o Celso (que não gostou muito) que retrucou dizendo para me colocar em campo que eu ia resolver. Eu entrei um pouquinho, a bola era maior do que eu. Eu não devo nem ter tocado na bola. Mas aí o Celso diz que eu dei ovinho e tal... História! Aí, avisaram que o treino seria no dia seguinte. O Celso me levou de novo, na escolinha com o Célio de Souza. Joguei no domingo, fiz alguns gols e joguei bem. Tinha uns jogadores do profissional por lá. Estes ficaram impressionados assim como o técnico Tim! Logo depois do jogo, um funcionário do Flamengo já me inscreveu na federação para me prender. Com isso, o River queria me inscrever no futebol de salão e não pôde.

9) Você então tornou-se federado?

ZICO: Era isso mesmo. E nós não sabíamos disso. Começaram a surgir convites e meu pai aceitou alguns deles. Minha família era de classe média baixa e vivia bem. Meu pai trabalhava das sete às sete, sustentava seis filhos, comprava roupinha na feira.... Além disso, os dez cruzeiros no River eram muito bons. E eu juntava esse dinheirinho. Meus irmãos me chamavam de Tio Patinhas.
Então os caras do Jacarepaguá, que era o campeão carioca de futsal, me chamaram para treinar, eu treinei bem, mas quando eles foram me inscrever eu já tinha registro pelo Flamengo. Eles ficaram enfurecidos. E quase deu problema entre o Flamengo e o meu pai, pois ele não tinha dado autorização para o Flamengo me inscrever na federação. Ele ficou louco da vida e conseguiram contornar o problema.



10) Estávamos pesquisando para falar sobre a criação do Campeonato Brasileiro, em 1971. A Placar fez uma matéria sobre os times que iam participar do campeonato brasileiro. Tinha uma matéria sobre o Flamengo. O Flamengo naquela época estava muito mal. Os jogadores estavam brigando com o treinador Yustrich. Ele tinha sido ex-goleiro do Flamengo. O Carlos Lacerda fez uma matéria criticando-o, dizendo que aquilo não era Flamengo, enfim...

ZICO: Ditador...

- Sim ditador, você lembra isso?

ZICO: Lembro, eu tava subindo. Tava subindo não. Eu era Juvenil. Tava com 17 para 18 anos.

- Bem, o que tem na entrevista. Tem falando do Flamengo, que era um caos, que o time era fraco e tem o Dida, que foi visitar o treino no dia em que a Placar estava lá e aí perguntaram para ele: E o futuro do Flamengo? Aí ele fala: “Tem dois garotos que são o futuro do Flamengo. Este, que é o Zico e o Fidélis. O Fidélis, ele está mais preparado, mas este garoto, o Zico, ainda vai dar muitas alegrias ao Flamengo”. E aí você responde: ”jogar metade do que o Dida jogou é fenomenal. Ele é meu ídolo, meu amigo.” Então o que eu queria saber é: Você lembra o que aconteceu primeiro com esse Fidelis?

ZICO: Bem, com o Fidelis aconteceu o seguinte: Ele era um jogador que tava lá no juvenil antes de mim. Ele jogou um ano antes de mim, jogou dois anos comigo e ele tinha idade pra jogar e jogou o outro ano em que eu já tinha saído. Ele era um jogador que tinha uma base muscular muito grande e todo mundo dizia que ele era “gato”, que ele não tinha aquela idade que supostamente tinha. Fizeram de tudo para descobrir e ninguém conseguiu descobrir. Mas ele não conseguiu fazer a transição. Ele era de São Fidélis, um negócio desses. Era um jogador baixinho, muito rápido, mas forte. Troncudo, ele parecia um “He-Man” assim, mas baixo. Você metia a bola para ele e ele disparava. Uma força muito grande, uma velocidade enorme. Então, pela velocidade na base, o pessoal achava que ele era ”gato”, que tinha lá uma diferença, de dois ou três anos, mas nunca ficou provado. Mas o que aconteceu foi que ele jogou quatro anos na mesma categoria. E aí acabou que quando ele foi para cima, não deu. O tempo passou. O tempo passou para ele.

11) E o que aconteceu com ele, você sabe?

ZICO: Não sei. Foi lá para terra dele. Acho que ele jogou ou tentou jogar em algum time pelo interior, acho que até pelo Americano, mas não conseguiu, não vingou. Em 71, aconteceu o seguinte: o Yustrich tinha aqueles métodos... Com o Yustrich, o treinamento começava às 7h da manhã. Ele treinava até 11h. Quando dava 8h e pouco, ele parava um pouco e dava fruta (melancia) e água para os caras. Tomava o café da manhã e, depois, voltava para o treinamento. De tarde, de novo. Ele não deixava faltar nada. Lembro que ele chegou à concentração, jogou fora os colchões, trocou tudo. Deu tudo do bom e melhor, mas concentração era o tempo inteiro. Os jogadores ficavam loucos. O Flamengo estourou. Quando ele chegou, três meses depois, todo mundo começou a se machucar, todos tinham problemas. Não durou muito lá. Aí entrou o Solich, em 71.

12) Que havia sido um treinador vitorioso e voltava.

ZICO: Tinha sido o treinador que lançou o Dida, em 55. E aí ele ficou um tempo. Solich já estava bem idoso. Foi nesse período, com 17, 18 anos, que eu joguei o campeonato da escolinha. E foi praticamente o primeiro campeonato que eu disputei. Não sei se foi em 69 ou 70, acho que foi em 70. Eu disputei em 69, mas era o campeonato da escolinha B, do pessoal mais abaixo. Mas o da escolinha mesmo, que seria hoje o infanto-juvenil, foi em 70. E, nesse campeonato, eu bati o recorde do Dionísio, no campeonato. O Dionísio era de 26 gols ou 25, e eu fiz 27. De amador. Este recorde é meu, até hoje. Então, os caras do Flamengo ficaram loucos. Foi aí aonde começou aquela coisa de fazer aquele trabalho de fortalecimento. Foi por causa desse campeonato. E aí veio o juvenil, em 71, eu tava muito bem, era o artilheiro do campeonato. Nós não fomos campeões, mas fomos 2º ou 3º e o Solich viu esses jogos. Foi quando acabou o nosso campeonato, ele me chamou para me lançar, para eu jogar numa Taça Guanabara. Aí, eu joguei. Entrei contra o Vasco. Eram dois jogos: iam jogar Flamengo x Vasco e Fluminense x América ou Fluminense x Botafogo (acho que era Fluminense x América). Aí, nós ganhamos de 2 x 1 e o Fluminense também ganhou. Fomos decidir a Taça Guanabara: Flamengo x Fluminense e Vasco x América. Perdemos de 3 x 1 . Depois fiquei no profissional e joguei no campeonato brasileiro. Foi em 71.

- Mas aí você ia aos poucos, não?

ZICO: Não, eu joguei. Joguei de centro-avante. Joguei quase todos os jogos.

13) A campanha do Flamengo não foi boa?

ZICO: Não, foi péssima. Mas, quando chegou ao final, antes de terminar, nós fomos convocados para a Seleção Olímpica. No pré-olímpico da Colômbia. Fui eu, foi o Fred e o Aloísio. E aí, o time enfraqueceu um pouco mais. Nós fomos para a Colômbia, o Flamengo foi eliminado do campeonato, o Solich saiu. Veio o Zagalo em 72, quando nós já estávamos na Colômbia.

14) Muita gente fala que você superou o Dida, superou o seu ídolo. E você, o que você sente em relação a isso? Realmente, você acha que os números superaram? Comparando o seu futebol com o futebol do Dida, como você faz essa comparação?

ZICO: Acho que os números são maiores mas a característica de jogo é um pouco diferente porque o Dida era um jogador de área, um jogador ali daquele espaço bem de ponta de lança a atacante. Bem de atacante mesmo. Eu não, eu já vinha de trás, metia a bola, lançamento, armava o jogo, chegava lá. Mas o Dida era de uma característica diferente. Ele era de uma rapidez muito grande e eu aprendi com ele essa rapidez de finalização. Agora, o Dida era um jogador muito elegante. Ele tinha todo um estilo. Era muito estilo. Era um jogador de muita técnica. De uma rapidez de raciocínio, de dar um drible, de chutar. Ele chutava forte, cabeceava bem, mas com muita antecipação. O zagueiro bobeava, ele antecipava e fazia o gol. Ele foi um grande espelho.

- Superar o ídolo é uma coisa...

ZICO: É... Mas nunca tive essa pretensão. Nunca tive pretensão de nada.

- Porém, na medida em que você olha a sua carreira, olha para trás, é algo gratificante.

ZICO: Sim, claro. Ainda mais que eu tive muito mais tempo, talvez muito mais jogos.



15) Também foi interessante porque você teve uma relação com ele, não?

ZICO: É, ótimo! Ele ficava lá sentado após os treinos. Eu tinha uma vergonha de ir lá, falar com ele. Ficava observando. Ele dava treino lá para o pessoal. Eu ia lá no Aterro vê-lo jogar pelo Surpresa. Jogou aquele campeonato de pelada no Aterro. Eu o vi jogar muito pela Portuguesa de Desportos, no Maracanã, quando ele saiu do Flamengo.
Você sabe que a última entrevista que ele fez, foi comigo?! O cara que é dono do Jornal do Sports hoje criou, na Rádio Manchete, uma parte do Flamengo e tinha um quadro que era a memória do Zico. Eu ia lá e gravava entrevistas com diversos atletas do Flamengo, da história. Eu tenho isso até para botar no meu site. Já tenho algumas. A do Dida tá lá. E, a última que eu ia fazer era a do Zizinho e aí não consegui fazer porque ele morreu. Então, tem lá a memória com o Dida.

16) Você agora com 23 anos, em 1976, na Seleção, com a camisa 8, fez um gol no bicentenário, nos Estados Unidos, num jogo contra a Itália. Nós ganhamos de 4 a 1. Você driblou vários jogadores. Você achou esse o gol mais bonito que você fez na seleção?

ZICO: Não

- Qual que você considera o gol mais bonito que você fez na Seleção Brasileira? O gol na Iugoslávia?

ZICO: Sim o gol mais bonito foi naquele jogo da Iugoslávia, mas não o que driblei vários jogadores. Foi o outro que acabou sendo ofuscado. Eu fiz um gol de calcanhar antes. O que o Branco bateu a falta, eu me antecipei na jogada, meti o calcanhar e isso surpreendeu todo mundo, que ninguém esperava aquilo e eu meti para dentro do gol. O goleiro ficou parado!

17) E pelo Flamengo?

ZICO: Pelo Flamengo foi um que não tem registro. Contra o Grêmio. Eu fiz alguns maravilhosos. Eu fiz um, uma vez, contra o Botafogo no Maracanã, que foi uma pintura. O jogo foi 2 x 2 . Nós estávamos perdendo de dois a zero, eu recebi uma bola assim no meio, o Marinho bruxa veio, eu dei um toque nele, assim meio que um balão por cima da perna dele. O Mauro Cruz, que era o zagueiro, veio e eu toquei a bola de um lado, peguei do outro, depois de fora da área, eu chutei e meti no canto.

- Quando foi isso?

ZICO: Em 74. Não, foi 75 ou 76. Depois empatamos. Eu sofri um pênalti e empatamos de 2 a 2.

18) Eu não sei se você vai lembrar. O meu pai (Rui), que é torcedor do América, disse que o gol mais bonito que você fez contra o América, foi um que você fez do meio de campo. O País (goleiro) saiu, e tentou driblar no meio do campo...

ZICO: É, do meio de campo. O País tentou driblar, o Paulinho roubou a bola. Foi da linha de meio de campo. O Paulinho deu um toque por cima para mim, a bola quicou, sobrou para mim e eu lá de fora mandei, passou pelo Alex (zagueiro do América)e foi quicando lentamente até entrar no gol .

19) Em 76, teve um momento, eu como torcedor estava lá na arquibancada e consigo me lembrar bem daquele pênalti perdido contra o Vasco. Eu me lembro que, como torcedor, já tava gritando “é campeão” antes de você bater e o Mazaroppi (goleiro) defender. Toda essa euforia e certeza era em função até da idolatria, da quantidade de pênaltis que você batia e não ter perdido nenhum. Como é que foi para você isso? Eu me lembro, e como flamenguista, acompanhava muito a sua carreira, houve muita crítica depois. Teve até aquela música, “Pavão Misterioso”, que o pessoal começou a cantar para você. Houve uma chuva de crítica em relação a isso.

ZICO: Foi, foi o único momento que a torcida do Flamengo me vaiou... Eu saí muito criticado, muito ofendido lá no dia do jogo, depois do jogo. Fui muito criticado ali.

20) Como foi suportar tudo isso?

ZICO: Cara, eu já tinha passado por tudo isso na minha família, com meus irmãos. A grande válvula de escape era essa. Por isso é que eu nunca me deixei endeusar para, quando as coisas mudarem, eu saber que o mesmo cara que está te abraçando, amanhã, quando tu tá passando aqui, ele tá passando lá do outro lado para te evitar. Isso é a lei do futebol. Era o famoso “tapinha nas costas”, que era muito falado na época nossa, que era o que acontecia realmente. Foi o período mais difícil do Flamengo. O problema de crítica da imprensa, isto é outra coisa. A própria dúvida, interrogação da torcida do Flamengo perante o que eu, pouco, mas já tinha feito até aquele momento. Aquilo foi um baque muito grande. Aquela coisa da expectativa. Achar que vai ganhar e tal... Então, gerou muita dúvida.

(continua na próxima edição)